Como superar os desafios do empreendedorismo?

Especialista e empreendedores falam sobre as dificuldades de abrir e manter um negócio no Brasil

O Brasil ocupa o 2º lugar de potenciais empreendedores (PE) – que são aqueles que não têm empreendimento, mas que gostariam de ter no prazo de até três anos –, com 51 milhões de brasileiros, ficando atrás somente da Índia, com 115 milhões de pessoas. É o que aponta a pesquisa GEM (Global Entrepreneurship Monitor) de 2022, realizado pelo Sebrae e pela Anegepe (Associação Nacional de Estudos em Empreendedorismo e Gestão de Pequenas Empresas).

A GEM aponta ainda que 67% da população brasileira adulta está envolvida com o empreendedorismo, seja porque já tem um negócio ou está fazendo algo para iniciar um empreendimento ou deseja começar a empreender nos próximos anos. Esta porcentagem corresponde a 93 milhões de brasileiros adultos, sendo que 42 milhões já empreendem — formal ou informalmente — e os outros 51 milhões são os PEs.

“O empreendedorismo no Brasil é essencial para cobrir a falta de emprego; colocar o País no mapa de inovação; expansão de negócios internacionais; e a produção e o desenvolvimento”, afirma o cofundador e CEO do Accountfy, Goldwasser Neto.

Há três tipos de empreendedores: primeiro, aquele que empreende por necessidade; segundo, a pessoa que empreende por oportunidade; e por último, o que assume e dá continuidade ao negócio da família.

“Hoje, temos muitas pessoas que empreendem por necessidade e não por oportunidade. Entretanto, quando falamos de empreendedorismo, é muito importante a identificação da oportunidade do negócio”, explica Ricardo Robson, gerente de Atendimento Personalizado do Sebrae Distrito Federal.

Desafios

Apesar de tantas pessoas se aventurarem no mundo dos negócios, os empreendedores enfrentam dificuldades e desafios para criar e manter o seu empreendimento. Ricardo Robson afirma que um dos principais obstáculos que os brasileiros encontram é a alta carga tributária.

“Existe uma grande expetativa de a carga tributária reduza com a Reforma Tributária, e com isso, o Brasil consiga ter um ambiente mais favorável para o empreendedorismo, principalmente no processo de cálculo (dos impostos)”, afirma Ricardo Robson.

Já Goldwasser Neto aponta que “a falta de educação financeira, incentivo, estrutura e até políticas públicas dificulta o avanço do empreendedorismo”. O CEO também acredita que pode representar entrave para os negócios o excesso de regulação em determinados setores (ou mesmo desregulamentação em outros).

Os dados da Global Entrepreneurship Monitor mostram que 60% da população brasileira tem o sonho de empreender. Kênio Lustosa está há 10 anos no mercado de alimentação, vendendo hambúrguer e cachorro-quente em Cidade Ocidental (GO), que fica no entorno do Distrito Federal (DF). O goiano é o típico empreendedor por necessidade. Tudo começou quando Kênio precisava de uma renda extra, pois o salário mensal não era suficiente para os seus planos.

“Comecei de forma bem simples. A equipe de trabalho era composta praticamente só por familiares”, lembra Lustosa. “Aos poucos fomos crescendo, contratando e ganhando mercado. Hoje seguimos trabalhando e tentando melhorar um pouco a cada dia”, conta.

“No começo é mais o “eupresa” do que “empresa”. Eu que fazia as compras, marketing, o financeiro, RH (recursos humanos) e a parte operacional. Ainda tinha questão de não conseguir crédito em bancos e a minha falta de preparo mesmo em alguns aspectos que exigem conhecimento específico”, relata o proprietário da lanchonete.

Aos 16 anos, a empresária Liliane Oliveira foi atrás do sonho de ter um grande salão de beleza. Começou nas periferias de Goiânia (GO), atendendo no carro aos domingos e segundas-feiras, além de trabalhar em outros salões e vender cosméticos. Depois de estudar o mercado de beleza e desenvolver a sua liderança, abriu o Studio Liss Beatuty Hair, nome dado em homenagem a sua filha, que se chama Liss.

Segundo a empreendedora, a sua caminhada não foi fácil, mas empreender está cada vez mais desafiador. “Hoje em dia está bem difícil empreender. Além de capacitar os profissionais, os impostos que são caros e a lucratividade é bem menor do que antigamente. Mas é possível sobreviver, você consegue se esforçar bastante e ter uma estabilidade, sim!”, afirma a dona do Studio Liss Beatuty Hair.

Como ser um empreendedor de sucesso?

1. Qualifique-se
O gerente de Atendimento do Sebrae DF afirma que se preparar para abrir o negócio é fundamental. “Temos uma preocupação com a capacitação dos empreendedores, pois a partir dessa etapa que terão melhores condições de se tornar empresários, vender seus produtos e o tempo de vida da empresa ser maior.

2. Planeje-se
Para quem deseja abrir o seu negócio, o especialista Ricardo Robson destaca que na fase inicial do negócio é preciso planejamento. Antes de fazer os investimentos, deve-se elaborar o plano de negócios de forma estruturada, conhecer os concorrentes e o público-alvo, a necessidade do mercado e saber mais sobre os fornecedores do ramo escolhido.

Na etapa de investimento, é preciso analisar o seu orçamento e a disponibilidade financeira que possui, além de entender a carga tributária do mercado que pretende atuar e os parâmetros de desempenho da empresa, a fim de medir os acertos e os pontos a melhorar.

3. Dicas de quem já empreende
Os empreendedores Kênio Lustosa e Liliane Oliveira dizem que é preciso estudar o mercado que almeja trabalhar. “Capacite-se muito, estude e inove, mas não espere demais, apenas comece sem medo de errar. Converse bastante com quem já é do meio, pois eles têm muito a ensinar; seja humilde para aprender; e lembre-se sempre de fazer uma reserva de emergência, pois você pode precisar!”, ensina Kênio Lustosa.

Liliane Oliveira reforça a importância do fundo de reserva. “Até mesmo para investir nos profissionais da sua equipe, a fim de capacitá-los e, com isso, melhorar o andamento da sua empresa”, ressalta.

4. Compre do pequeno
Nós, consumidores, também podemos auxiliar e estimular o empreendedorismo brasileiro. Para Goldwasser Neto, “o primeiro passo é valorizar os produtos nacionais”. Por outro lado, os donos de empresas consolidadas também podem contribuir com os empreendedores em fase inicial, trocando experiências e dando feedbacks sobre ações e estratégias que estão apostando.

Ricardo Robson faz um apelo para que os consumidores passem a comprar com os micro e pequenos empreendedores e do comércio de bairro. “Quando a gente privilegia o pequeno, a gente está privilegiando a grande massa de empresas do nosso país”, declara o gerente de Atendimento do Sebrae DF.

Fonte: Varejo SA